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A história do Abrigo D. Marina Bourdette

Texto escrito por Aline Natal, administradora voluntária do abrigo e associada da Ação Animal

Há aproximadamente 15 anos, D. Marina trabalhava como supervisora de limpeza nesse abrigo de animais, que pertencia e era mantido por Neuza, sua chefe e amiga. Naquela época, Neuza sofreu um AVC, que a deixou em estado vegetativo por muitos anos. A irmã de Neuza, então, passou a administrar os bens dela e cancelou todo e qualquer tipo de ajuda aos animais mantidos no abrigo.

D. Marina, então, precisou dispensar os 6 empregados encarregados de limpar e cuidar de centenas de animais e passou, sozinha e sem recursos, a ser a nova responsável pela manutenção da vida daqueles cães e gatos.

D. Marina, 62 anos, e alguns animais

Quando conheci o abrigo, há aproximadamente 10 anos, a realidade do local era aterrorizante. Não existiam recursos para comida, medicamentos, tratamentos veterinários ou faxineiro. Os animais contavam apenas com o amor e a boa vontade da D. Marina.

Eram mais de 300 cães e gatos que se alimentavam somente do “lixão” dos restaurantes da região. Esse “lixão” era comprado por uma voluntária e entregue no abrigo apenas 3 vezes por semana. A comida, que já chegava em estado de putrefação, com pedaços de louça quebrada, talheres e outros objetos, era colocada no chão do abrigo, e ali ficava por 48h, embaixo de sol e chuva, até chegar o próximo tonel de comida podre.

O abrigo mais parecia um mar de fezes… o odor era insuportável, uma mistura de comida azeda com cocô. E, apesar de o chão ser de cimento, só era possível entrar lá de galocha e jaleco.

Naquela época, a morte era rotina. Morriam e nasciam animais aos montes, poucos eram castrados e os doentes contavam apenas com alguns remédios vencidos que eram doados. Eu mesma presenciei um cão vomitar o braço inteirinho de um gato filhote que ele havia acabado de arrancar. Obviamente fui procurar o gatinho, mas ele já estava morto dentro da gaiola, de onde, na tentativa de brincar com os cães, colocou sua patinha para fora.

Mediante aquela situação de horror, tentei desesperadamente ajudar aqueles animais. Inicialmente contava apenas com meus próprios recursos financeiros, mas tudo o que eu conseguia doar era pouco diante de tantas necessidades.

Então comecei a ir ao abrigo também aos domingos, com a intenção de minimizar um pouco o sofrimento daqueles cães e gatos. Por diversas vezes me agarrei a eles e chorei desesperadamente. Eram muitos animais doentes, e eu não tinha condições financeiras de fazer mais nada além do que eu já fazia.

Aconselhada por uma amiga, passei então a buscar recursos através de pedidos de ajuda via internet, tentando suprir as necessidades mais básicas, que, naquele momento, eram ração e remédios. Foi nessa época que conheci minhas parceiras da Ação Animal e intensificamos nosso trabalho no abrigo e nas Campanhas de Adoção.

Depois de anos de trabalho voluntário, posso dizer que conseguimos transformar um abrigo miserável num abrigo apenas carente.

Hoje temos aproximadamente 40 colaboradores fixos que nos ajudam a manter os animais. Temos dois funcionários remunerados, 1 auxiliar de enfermagem e 1 faxineiro, e contamos com a ajuda voluntária de alguns médicos veterinários do bem! Mas cirurgias, remédios e exames precisamos pagar como qualquer outra pessoa, já que ainda não temos condições de ter nossa própria estrutura veterinária.


Aline (administradora), Paulinho (faxineiro) e Marcia (auxiliar de enfermagem)

Todos os animais são alimentados diariamente com ração. Quando adoecem, são assistidos por veterinários e devidamente medicados. Há vários anos não existe mais reprodução no abrigo, pois 100% dos machos e 50% das fêmeas estão castrados.

Daquela época até os dias atuais, muitos animais foram adotados e hoje têm uma família de verdade; outros morreram e vários “velhinhos daquela época” ainda vivem no abrigo. E mais de 100 novos animais foram acolhidos por nós, sendo a maioria covardemente amarrada na porta da “casa” da D. Marina ou arremessada por cima do muro de 4m de altura.

Sabemos que um abrigo carente nunca será o local ideal para um animal viver, e que ainda temos um longo caminho a percorrer até conseguirmos proporcionar aos 350 animais condições de vida realmente satisfatórias. Porém, tentamos a cada dia fazer com que os animais lá abrigados possam ser verdadeiramente protegidos e tratados com o carinho e respeito que merecem.

Aline Natal